2.7.09

flores de plástico não morrem

hoje de manhã, era ainda bem cedinho, eu acho que era tão cedo que ainda estava quase escuro lá fora, mas não, na verdade pelo ponteiro do relógio já devia ter amanhecido, mas lá fora era uma escuridão doída como se o sol tivesse preguiça de se levantar num dia tão triste, e quando eu pus os pés pra fora da cama a primeira coisa que eu olhei foi o nosso vasinho do lado de fora da janela, eu já sabia, no fundo eu já sabia, eu nem devia ter olhado, devia ter levantado da cama evitando olhar pro lado de fora como eu faço todos os dias, devia ter ido pro banheiro escovar os dentes na frente do espelho vendo meu cabelo despenteado e pensando por que é mesmo que eu não corto de uma vez essa juba descontrolada, e depois eu devia ter entrado na banheira sentindo a água com a ponta dos pés pra ver se não estava quente demais, e sempre está quente demais, que eu não sei ajustar a água nessa droga de chuveiro novo que você comprou, e assim eu teria continuado o meu dia como se nada tivesse acontecido, e quando chegasse a noite talvez eu nem me lembrasse de sentir a tua falta, talvez eu fosse até a cozinha, comesse alguma coisa qualquer esquecida na geladeira desde o dia anterior, e depois eu me enfiasse debaixo do cobertor fazendo de conta que você ia encostar os teus pés nos meus pra gente se proteger do frio, e se eu fechasse os olhos talvez eu até pudesse sentir a tua respiração na minha orelha esquerda, e eu ia dormir e sonhar, ah eu ia sonhar com os dias em que a gente acordava e olhava pro lado de fora, e a nossa plantinha estava lá, viçosa, esbanjando felicidade por todas as pétalas amareladas e brilhantes feito o sol que não tinha preguiça de se levantar, época boa aquela em que o sol nunca tinha preguiça de se levantar porque a gente acordava sempre sorrindo, e é bom demais acordar sorrindo e sentindo um abraço preguiçoso assim de surpresa, mas hoje, é, hoje, não foi nada disso, hoje, hoje eu olhei pro nosso vasinho do lado de fora, e a única coisa que eu vi antes de virar o rosto pra esconder sabe lá de quem as lágrimas que rolaram de uma vez só sem me perguntar se podia ser, foi a nossa florzinha abandonada, as pétalas desbotadas, a terra seca e a sombra triste, tão triste aquela sombra, a sombra pálida e acanhada de tudo aquilo que já foi um dia.

imagem: Irisz Agocz

30.6.09

moída

férias escolares, Chiara congestionadinha (das agruras do filho caçula, pega gripe dos mais velhos desde sempre), Estrela com dor de ouvido e febre, Ana Luz com dor de garganta e febre, eu com uma gripe que não sara nem com reza braba, empregada dando cano no serviço, trabalho pra finalizar e um dia que, não importa o quanto eu lute contra, só tem mesmo 24 horas.
sabe aquela expressão "só o pó da rabiola"?
então. sou eu.
uff.



imagem: Ana Oliveira

29.6.09

descobri





... que a felicidade cabe numa cama queen size.


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imagem: Irisz Agocz

26.6.09

dá pra falar de outra coisa




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... que não seja a morte do Michael Jackson, se me faz favor?
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imagem daqui

25.6.09

siete

é que hoje eu acordei com uma chuvinha fina e insistente tamborilando na janela, teu despertador tocando o grito de guerra da torcida do Palmeiras - das particularidades de estar casada com um palestrino fanático! -, e lá se tinham ido sete anos. sete anos desde aquele beijo tão intenso, com sabor de reencontro, no estacionamento do Shopping Ibirapuera, depois de um almoço italiano, eu gripadíssima e encapotada até a raiz dos cabelos - literalmente, porque eu usava uma touca de lã preta que me amassava os cachos e me deixava com cara de menina, uns quinze anos talvez. você nem ligou. e lá se foram sete anos de idas e vindas, de encontros e desencontros, de mãos dadas, de distâncias, de sorrisos e desencantos. sete anos de poesia constantemente reinventada. sete anos em que a gente se perde e se encontra, mas não desiste nunca. libriano obstinado e leonina teimosa, dá nisso. pois é, lá se foram sete anos. sete anos em que aprendemos tanto um com o outro, sete anos caminhando lado a lado. é verdade, às vezes um aperta o passo e o outro fica um tantinho pra trás, às vezes eu pego um desvio à direita e você vai pra esquerda, mas engraçado, sei lá o que é que acontece com esses nossos caminhos, mas eles sempre acabam se encontrando de novo. parece sina, destino, carma ou sei lá o que. nesses sete anos, tantas estórias. umas felizes, outras nem tanto. mas que vale a pena, disso eu não tenho a menor dúvida. e hoje aqui, sete anos depois, nossa familinha, completa, tão linda. eu, você e nossas três pimentinhas. nossas três menininhas, nascidas desse amor tão inteiro, tão intenso, tão imenso.
às vezes, certas manhãs de domingo, aquela bagunça na cama, nós cinco e o mundo todo do lado de fora, eu fico me perguntando se existe felicidade mais inteira que essa.
feliz aniversário de namoro, meu bebê.
amo, demais.
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24.6.09

'mesversário'

deixa eu ficar assim, do teu ladinho, bem quieta, enquanto você dorme. eu só quero sentir a sua respiração tão suave, ouvir os sonzinhos divertidos que você faz de vez em quando, sem acordar. fechar meus olhos e agradecer à vida por ter me enviado você embrulhadinha pra presente - afinal, foi assim mesmo que você nasceu, embrulhadinha. eu só quero passar uns minutinhos esquecida da vida, como se no mundo inteiro só existíssemos eu e você, eu, você e a tua boquinha grudada no meu peito, e os teus olhinhos brilhando, tão expressivos esses teus olhinhos cinzentos. eu fico aqui, curtindo o teu silêncio, e a tua presença inundando poesia nesse quartinho onde você quase nasceu. e quando você acordar, eu vou te pegar nos braços, vou sentir o teu cheirinho que ninguém mais tem, e se eu tiver sorte, você vai me dar um daqueles sorrisos que só você sabe, aquele sorriso que você sorri com os olhos, com as sombrancelhas, com as bochechinhas redondas, com os braços e pernas agitados freneticamente. vai ser só um instante, mas vai valer uma vida inteira.

23.6.09

gris

e você me perguntou o que eu queria, assim, sem mais nem menos, a seco, à queima-roupa, você perguntou mastigando as palavras o-que-é-que-você-quer-afinal, e eu fiquei com a boca entreaberta ensaiando uma resposta que não veio, eu já nem sei se eu não tinha mesmo uma resposta pra te dar, ou se no fundo lá bem no fundo eu tinha um medo danado de te dar a resposta que vinha me rodopiando no peito há um tempo danado, tempo demais, então eu não disse nada, balancei a cabeça como quem deixa pra lá, a intenção era bem essa mesmo, deixar pra lá, afastar os maus pensamentos e deixar que as horas passassem, quem sabe no dia seguinte a gente podia acordar e tudo ia fazer sentido de novo, tudo bonito de novo, tudo colorido de novo, mas não, ingenuidade besta da minha parte achar que alguma coisa ia fazer sentido de novo, que alguma coisa ia ser bonita de novo, que alguma coisa ia ser colorida de novo, se tem uma coisa que eu já devia saber nessa estória toda é que a gente tá enterrado até o pescoço nessa lama cinzenta, e enquanto a gente estiver enterrado até o pescoço nessa lama cinzenta é assim que as coisas acontecem, o que a gente diz nunca é o que a gente queria dizer, e por mais que a gente se canse, e por mais que a gente se machuque, e por mais que a gente se afunde, é sempre a mesma coisa, a gente olha pros lados e é sempre a mesma lama cinzenta engolindo tudo, os nossos sorrisos, as nossas promessas e cada pedacinho de sonho que a gente perdeu pelo caminho, e como eu não te dei a resposta que você queria, se é que você queria mesmo alguma resposta, eu desconfio que você tinha tanto medo quanto eu da resposta que eu podia te dar, porque se eu te desse a resposta que você esperava que eu desse, e que eu no fundo no fundo talvez tivesse pra dar mas tive medo e não dei, já não ia dar mais pra fazer de conta, e a verdade ia bater na nossa porta, e a gente ia ter que tomar uma atitude a respeito, mas como eu não te disse nada, nem mesmo uma bobagem qualquer que te fizesse notar o ridículo da situação e a gente pudesse achar graça e fazer de conta que não estava doendo, como eu fiquei quieta com a boca entreaberta feito uma estátua estúpida, uma estátua sem graça perdida no meio do nada, você virou as costas e abriu a porta, e tudo o que eu senti foi o vento gelado me batendo no rosto, e tudo o que eu vi foi o vazio imenso do lado de fora, e o vento bagunçou os papéis em cima da mesa, e dali um segundo eu olhei de novo, a porta vazia e você não estava mais lá. era só o vento gelado lá fora, um vazio imenso aqui dentro, e você não estava mais lá.


imagem: Irisz Agocs

17.6.09

torbellino

porque eu quero ser tudo o que eu puder. chega de barreiras, de limites, de cercas me delimitando espaço e me dizendo por onde eu posso ou não posso ir. meu caminho é o mundo inteiro. todas as cores, todas as dores, todos os 'sims' e todos os 'nãos'. eu quero tudo, o amor e a dor, quero da cabeça aos pés, quero por fora, por dentro e o que mais tiver direito. vontade do mundo. vontade de vida, vontade de me deixar colorir por dentro.
às vezes é assim mesmo. vem um tufão impiedoso, derruba tudo pelo caminho e deixa a gente de peito aberto, indefeso diante da vida.
dá medo. ah, dá. um medo danado.
porque é intenso, e derruba, e transforma. e às vezes dói. e às vezes muito.
mas quando a gente se levanta no dia seguinte, olha pela janela e um sol desavergonhado vem nos dar bom dia convidando a começar tudo de novo, ai, que vontade que dá.
eu tô assim.
pura vontade. pura intensidade.
os braços abertos antes do salto de pára-quedas. o imenso vazio azul-celeste até onde a vista enxerga. o coração batendo acelerado.
e aquele friozinho inconfundível na barriga.


imagem: Nonnetta

16.6.09

simples

eu queria ter da vida simplesmente
um lugar de mato verde
pra plantar e pra colher

ter uma casinha branca de varanda
um quintal e uma janela
só pra ver o sol nascer

não tem dias que dá vontade?

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* 'Casinha Branca', de Gilson e Joram / imagem: Claudia Degliuomini

12.6.09

avesso


pode parecer promessa
mas eu sinto que você é a pessoa
mais parecida comigo que eu conheço
só que do lado do avesso *

você direito, e eu avesso
ou eu direito, você avesso
importa não

o que importa
é botar os meus pés juntinho dos teus
na hora de ir pra cama
e no escurinho
a gente se iluminar

feliz dia dos namorados
amor, da vida toda



* 'Avesso', de Ceumar e Alice Ruiz / Imagem: Cacau Ferreira

eu não vou dizer nada (além do que estou dizendo)

se tem uma coisa que me tira do sério, é gente que fala do que não sabe.
quer discutir, argumentar, trocar idéia, beleza. bom demais. eu adoro. é sempre bacana bater bola com gente inteligente, gente que pensa.
agora, tem coisas que só dá pra gente falar sobre depois que vivenciou. do lado de dentro. sentiu na pele.
tem jeito não. nem tudo na vida dá pra gente especular, teorizar. tem coisas que só na prática é que a gente sabe como é. de nada adianta ouvir falar e passar adiante, feito papagaio repetindo sem saber do que se trata.
aí quando a pessoa chega com aquele papinho do tipo "não vi, não sei como é e já não gostei", afe. cansa, viu.
não entendeu nada?
passa lá no mamíferas, vai.

10.6.09

caminhando

ando buscando reencontrar caminhos. reinventar, redescobrir. 're' passou a ser o prefixo da vez. re-mundo.
tanta coisa nova que me revira por dentro, desde aquela madrugada fria de 24 de maio. universo em expansão. infinito. bolhas de sabão que me saltam do peito, coloridas, explodindo em arco-íris bem diante do meu nariz.
eu sou outra.
e nada mais à minha volta é do mesmo jeito.
e eu ainda estou aprendendo a conviver com tudo isso.
torbellino, furacão.
loucura.
mas bom, demais.


imagem: Majeak Ann

6.6.09

corujice

videozinho da Chiara, com quase 4 dias de vida, aqui.
videozinho das mais velhas fazendo graça, aqui.

26.5.09

três