hoje de manhã, era ainda bem cedinho, eu acho que era tão cedo que ainda estava quase escuro lá fora, mas não, na verdade pelo ponteiro do relógio já devia ter amanhecido, mas lá fora era uma escuridão doída como se o sol tivesse preguiça de se levantar num dia tão triste, e quando eu pus os pés pra fora da cama a primeira coisa que eu olhei foi o nosso vasinho do lado de fora da janela, eu já sabia, no fundo eu já sabia, eu nem devia ter olhado, devia ter levantado da cama evitando olhar pro lado de fora como eu faço todos os dias, devia ter ido pro banheiro escovar os dentes na frente do espelho vendo meu cabelo despenteado e pensando por que é mesmo que eu não corto de uma vez essa juba descontrolada, e depois eu devia ter entrado na banheira sentindo a água com a ponta dos pés pra ver se não estava quente demais, e sempre está quente demais, que eu não sei ajustar a água nessa droga de chuveiro novo que você comprou, e assim eu teria continuado o meu dia como se nada tivesse acontecido, e quando chegasse a noite talvez eu nem me lembrasse de sentir a tua falta, talvez eu fosse até a cozinha, comesse alguma coisa qualquer esquecida na geladeira desde o dia anterior, e depois eu me enfiasse debaixo do cobertor fazendo de conta que você ia encostar os teus pés nos meus pra gente se proteger do frio, e se eu fechasse os olhos talvez eu até pudesse sentir a tua respiração na minha orelha esquerda, e eu ia dormir e sonhar, ah eu ia sonhar com os dias em que a gente acordava e olhava pro lado de fora, e a nossa plantinha estava lá, viçosa, esbanjando felicidade por todas as pétalas amareladas e brilhantes feito o sol que não tinha preguiça de se levantar, época boa aquela em que o sol nunca tinha preguiça de se levantar porque a gente acordava sempre sorrindo, e é bom demais acordar sorrindo e sentindo um abraço preguiçoso assim de surpresa, mas hoje, é, hoje, não foi nada disso, hoje, hoje eu olhei pro nosso vasinho do lado de fora, e a única coisa que eu vi antes de virar o rosto pra esconder sabe lá de quem as lágrimas que rolaram de uma vez só sem me perguntar se podia ser, foi a nossa florzinha abandonada, as pétalas desbotadas, a terra seca e a sombra triste, tão triste aquela sombra, a sombra pálida e acanhada de tudo aquilo que já foi um dia.
imagem: Irisz Agocz














