"Me explica, que às vezes tenho medo. Deixo de ter, como agora, quando o vento cessa e o sol volta a bater nos verdes. Mesmo sem compreender, quero continuar aqui onde está constantemente amanhecendo."
(Caio Fernando Abreu)
é, às vezes eu quero ir embora. sou humana, fraquejo, me assusto, encolho. pra que negar? quando dói, eu preciso do silêncio, mesmo que você não entenda, mesmo que custe. e eu sei que custa.
mas quando o dia amanhece, eu volto a querer. esperança, sabe?
esse sol tão bonito entrando pela janela, enche a gente de alegria de um jeito. tudo fica mais leve, e eu acredito de novo.
3.12.09
seja como for
27.11.09
é que hoje é teu 'mesversário'...
essa semana, na terça, nossa pititica fez seis meses.
dá pra acreditar? outro dia eu tava aqui contando da descoberta da gravidez, do nosso pequeno milagre chegando na hora mais inesperada possível, pra virar tudo de cabeça pra baixo e reinventar a poesia da nossa familinha. e hoje a bichinha tá aqui, seis meses, senta, vira e desvira, conversa, reclama (quase nada, que a pequena é boa-gente que só ela), tá doida pra avançar na nossa comida e a cada dia aprende uma gracinha nova.
transformou as nossas vidas, essa molequinha. chegou assim sem pedir licença, sem perguntar se podia, porque sabia que o coração estava aberto pra ela, como sempre esteve. chegou colorindo tudo, sorrindo aquele sorriso de derreter iglu, fazendo aqueles sonzinhos cheios de graça, bagunçando os nossos dias e colorindo tudo à sua volta, feito arco-íris depois da chuva.
ah, minha bichinha, você anda crescendo tão rápido. a cada dia me surpreende com um sorriso mais lindo, com um olhar mais doce. a cada dia que a gente vive juntas, eu me apaixono mais por você.
há pouco mais de um ano, a gente nem imaginava você fazendo parte da nossa vida. hoje, a gente se pergunta como é que deu pra ser feliz sem as tuas mãozinhas arteiras acordando a gente às seis da manhã, sem as tuas coxinhas gorduchas pra gente morder, sem os teus olhinhos cinzentos e arregalados que dizem tanto sem dizer palavra. obrigada, minha Kizumba, obrigada. obrigada por, juntinho das tuas irmãs, fazer a gente relembrar todos os dias que o amor é coisa boa demais e sempre tem pra onde crescer.
se hoje eu pudesse fazer um pedido enquanto tuas irmãs apagam a velinha que você ainda não consegue apagar, seria que o tempo parasse, um tiquinho só. e que eu pudesse ficar uns instantes compridos, bem compridos, deitada do teu lado, acarinhando teu cabelinho revolto e vendo a tua barriguinha subir e descer enquanto você dorme.
dizer que amo você é pouco, minha bebezica-surpresa. se eu repetisse daqui até o último dia da minha vida, ainda seria pouco.
parabéns, minha caçulinha. parabéns.
ps: o 'mesversário' da pequenina foi dia 24. mas eu sou mãe de três, então dá pra relevar o atraso, né não? ;-)
24.11.09
lista de desejos
pega-pega, queimada
empinar pipa, rodar pião
pés sujos e alma lavada
quero que me enterrem na areia
deixando só os pés pra fora
quero girar rodopiando as saias
ser feliz assim, sem tempo nem hora
quero ser pequena de novo
menina, leveza, bicho-criança
sentir a inteireza de novo
sorrir transbordando esperança
quero ver elefantes, maria-fumaças, pirulitos
deitada na grama, olhar as nuvens no céu
quero o brilho nos olhos da menina acanhada
aquele andar distraído que um dia foi meu
quero toda a vida na ponta dos dedos
mais ingenuidade, mais inocência
quero falar e ouvir e sentir e chorar
aceitar em mim a imensidão e a carência
quero presente embrulhado
com laço de fita cor-de-laranja
quero a noite chegando, o vestido rodado
um convite galante para a próxima dança
quero tudo assim
verde-anil-corderosa-carvão
não quero pensar, não quero razão
quero a beleza do sim e do não
ser feito a poesia: toda, toda coração
que assim, seja
23.11.09
máquina do tempo
coisa fantástica, esse correr da vida. embrulha e desembrulha, já dizia rosa, e que coisa boa. o tempo passando sempre, tanta coisa ficando pra trás, tanta coisa nova chegando. e a gente aprendendo, descobrindo. braços abertos para o que tiver que vir. seja tropeço, seja conquista, seja de rir ou de chorar, o importante mesmo é a gente se sentir vivo. lágrimas e sorrisos são só dois lados da mesma viagem, e o bom da vida é a gente saber que tudo vem pra ensinar, pra fazer crescer, pra madurar. tem muita coisa na minha história que eu me pego pensando que queria fazer voltar, e é bom isso. ter coisa boa pra lembrar, coisa boa pra sentir saudade. e do outro lado, um infinito de sonhos, projetos, uma estrada imensa, comprida, um horizonte todo desconhecido que me dá água na boca de desvendar, tateando com a ponta dos dedos. eu não quero voltar, eu não quero seguir adiante mais rápido do que o correr do dia. minha máquina do tempo fica encostada num canto só pra eu brincar de fazer de conta, porque pra dizer a verdade o que eu quero mesmo é aqui, olhar pros lados e sentir que não tem nada melhor na vida do que esse instante. esse mesmo, ao alcance da mão, possível, inteiro, intenso. bagunçado, sujinho, saboroso. esse mesmo, presente. *22.11.09
vortêmo
então, né. os últimos quinze dias deviam ter sido de férias. muito descanso, sono colocado em dia, muita sombra e água fresca. rá, pois sim. dona providência não estava indo com a nossa cara, e eis que mal colocamos o pé na estrada (com o porta-malas abarrotado, como convém a pais de três), e uma virose impiedosa tomou conta das pimentas, uma após a outra, assim igualzinho caminho feito com dominó. aí, descanso virou piada de mal gosto. mar, praia, sol, ficou tudo na saudade, e voltamos da viagem uma semana mais cedo do que o programado. até conseguimos aproveitar a semana que restava das férias carregando as meninas pra cima e pra baixo, fomos em parques e mais parques, demos um pulo em Campos do Jordão, enfim, aproveitamos como deu. tudo isso, é claro, em meio a visitas à pediatra, noites em claro com uma, depois com a outra, depois com a terceira, e depois com a primeira de novo, ufa. mas sobrevivemos, e cá estamos até que felizes da vida, porque no fim estamos todos bem, e passamos quinze dias mais juntinhos do que nunca. e não é isso que importa, afinal?
7.11.09
vou ali e já volto
então é isso aí, férias.
pelos silêncios compridos que andaram rolando por aqui nos últimos tempos, deu pra perceber que eu andava sobrecarregada e precisada de um tempinho off, né não?
pois é, e lá vamos nós. familinha botando o pé na estrada rumo a praias de areia branquinha e águas cristalinas, pra recarregar as baterias.
quinze diazinhos, e já já tamo de volta.
enquanto isso, pra quem não aguentar de curiosidade, vezemquando tem fotinho no flickr da mamie bella. e lá no mamíferas, os posts também continuam.
até mais, meu povo!
3.11.09
sobre formigas e cigarras
outro dia, ia andando pela rua um pouco distraída como é de costume, olhei para o chão de relance, uma fileira imensa de formigas carregando nas costas pequeninas folhas verde-musgo coloria meu caminho. esqueci do que ia fazer, dei um chega pra lá na pressa, agachei-me e fiquei ali alguns minutos. as formigas, incansáveis, iam e voltavam, iam e voltavam - seriam mesmo sempre as mesmas? senti uma pontinha de inveja dessa vontade de ferro, essa obstinação inesgotável, essa capacidade de seguir adiante sem olhar para os lados, concentrada apenas em um objetivo, prático e concreto: armazenar folhinhas para alimentar o formigueiro durante o inverno (será verdade o que nos contam na fábula da cigarra e da formiga?). queria eu ter objetivos assim tão bem definidos, quereres tão arredondados e um plano tão retilíneo que me levasse sem devaneios até o ponto de chegada. mas não sou uma formiga, não sou retilínea e muito menos objetiva, minhas vontades nada têm de concreto. eu desejo nuvens, e nem mesmo sei que forma teriam. desejo cores que não sei quais são, desejo o que se esfumaça quando chego perto. desejo a bolha de sabão impossível ao toque, feito criança sorridente que estende na esperança do toque a ponta dos dedos melados, até ver sumir o objeto do desejo para além do muro de concreto (sempre há um muro de concreto além do qual não se pode ver). sorrio divertida ciente de meu próprio ridículo, de meus quereres sempre inconstantes, difusos, translúcidos. sou cigarra irreverente, rio dos pragmatismos e sigo tocando meu violão acompanhado do meu cantar vagabundo na beira da estrada. meu caminhar pode não ser em linha reta, mas o amontoado de poesia que carrego nas costas alimenta-me por um, dois, infinitos invernos.
26.10.09
para quando o pára-quedas não abrir
"Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. Só não saberás nunca que neste exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendes o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte. E começas a falar." *
a impressão que eu tenho é que, se começar agora, não páro mais, talvez passe a madrugada em claro falando, falando e falando, mesmo sem saber se haverá alguém para ouvir (no mais das vezes, isso não é mesmo o mais importante). de qualquer jeito, com rede ou sem ela, eu salto, não meço a a altura do tombo. brinco de esconde-esconde com o medo, finjo a coragem que não tenho e faço da vida uma ode à beleza, à doçura e à suave tristeza que existe em caminhar pela corda bamba de olhos fechados e coração suspenso.
25.10.09
do avesso
é, hoje é um daqueles dias. não daqueles daqueles dias, mas daqueles dias, sabe? aqueles em que a gente não sabe onde colocar a mão, não sabe o que fazer com aquele redemoinho sufocando no peito, tem vontade de gritar e no minuto seguinte de ficar num canto em silêncio, aqueles dias. não gosto de dias assim, não gosto. gosto de me revirar, gosto dos furacões e das tempestades, mas desse gosto amarguinho do que não é nem uma coisa nem outra, isso não. isso me cansa, me desanima, eu fico toda acinzentada e não tenho vontade de levantar da cama. são inúteis esses dias, detesto. um dia de dor serve pra alguma coisa, um dia de alegria serve pra burro, mas esses dias que não são nem lá nem cá, tédio. encardida, é isso, hoje estou com a alma encardida. o bom é que num piscar já se foi, agora eu durmo e amanhã logo cedo - porque eu tenho aqui três pimentinhas madrugadoras que não permitem que seja logo tarde - vem outro. o bom do tempo é isso, não pára. ufa.
21.10.09
tin-tin
às tuas mãos firmes, seguras
ao teu jeito estabanado de querer abraçar o mundo
eu brindo à tua presença
às tuas palavras que me abraçam
afagam e acolhem
eu brindo à tua risada tão sincera
que preenche todos os espaços, transborda alegria
ao brilho nos teus olhos, que some mas volta
eu brindo aos teus passos às vezes cansados
à tua vontade de seguir em frente e começar de novo
à tua esperança que não morre nunca
eu brindo ao teu coração do tamanho do mundo
à tua coragem tão cheia de delicadeza
ao teu amor teimoso
eu brindo à tua vontade de ferro
ao teu jeito obstinado de correr atrás
à tua insistência, à tua determinação
eu brindo a cada pedacinho teu
cada pedacinho que te faz assim
do jeitinho que eu amo
tanto
um brinde a você, meu amor
meu companheiro, meu amigo
meu parceiro
tanto
parabéns a você, meu bebê
amo, amo, amo
tanto
14.10.09
(re)fresco
então são dias em que a alma pede um descanso, sabe, um respiro. não precisa ser muito, qualquer migalha de ar fresco já renova, reanima. estou precisada de um silêncio na beira da cachoeira, lavando os pés na água cristalina e ouvindo o vento bater nas folhas, frescura, clareza. quando a visão fica turva, quando tudo se confunde, é desse silêncio que eu preciso. eu sigo buscando, sigo caminhando, os pés doem e se cansam de vez em quando, mas eu me recolho e repito baixinho que há de ser assim mesmo. quando a gente começa uma caminhada sabendo que não tem a menor importância o final da estrada, é natural cansar-se de vez em quando. natural duvidar, perguntar, encolher, natural. eu me agacho com os pés sujos de terra, estendo a mão para tocar as pedras que descansam quietas embaixo d'água, inexisto por um instante, e é bom. faz um bem danado deixar de ser de tempos em tempos, esquecer, esvaziar. como se fosse um novo começo, embora a gente nunca possa esquecer de tudo. mas eu gosto dos novos começos, gosto das folhas em branco, gosto. tem todo o trabalho de começar tudo de novo, e criar novas expectativas, e reconhecer e tatear em volta para criar familiaridade, mas é bom. sobrevive essa dorzinha insistente e o nó na garganta, mas é bom. eu não sei caminhar adiante sem me doer da beleza e da inteireza de tudo no meio do caminho, tudo me invade, tudo inunda e transborda, e eu sorrio aliviada de saber que tudo ainda pode ser intenso, e eu ainda posso sentir até que me doam os ossos. dói, mas alimenta, e não há dor que doa eternamente, já dizia minha avó: "antes de casar, sara".
13.10.09
chamamento
se te pareço noturna e imperfeita
olha-me de novo. porque esta noite
olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
e era como se a água
desejasse
escapar de sua casa que é o rio
e deslizando apenas, nem tocar a margem.
te olhei. e há tanto tempo
entendo que sou terra. há tanto tempo
espero
que o teu corpo de água mais fraterno
se estenda sobre o meu. pastor e nauta
olha-me de novo. com menos altivez.
e mais atento.
Hilda Hilst
porque hoje vou botar a cabeça no travesseiro
me sentindo mais noturna e imperfeita
do que nunca.
imagem recebida por email, sem crédito
7.10.09
band-aid
cortei o dedo
quando você se foi
e ainda não sarou
só quando você voltar
meu amor
é que eu páro de sangrar *
hoje cedo cortei o dedo. foi um tombo besta, que nem vale a pena contar. o fato é que foi um corte significativo, bem na dobra do dedo, e agora cada vez que tento fazer um gesto cotidiano qualquer que uma pessoa comum faz dezenas de vezes ao dia sem se dar conta, como pegar uma caneta, ou coçar a sombrancelha, o dedo lateja. talvez queira me lembrar que não, eu não sou cotidiana nem comum, pelo menos não por ora. por um minuto, esqueço do resto e me concentro na dor. dores são puro presente, pura presença, e não nos permitem nada menos que o aqui e agora. pés no chão e um exagero de realidade, sem meias-verdades. o que dói, dói. penso em dores agudas e cortantes, imediatas. dores físicas que, a despeito disso, ainda dóem além. quantas vezes na vida nos é dada essa oportunidade, deixar tudo de lado e concentrar-se em um sentir intenso e inteiro, de uma vez e sem remédio. creio que todos precisamos de dores como essa, vezemquando. seja com for, ao menos um respiro, um intervalo onde se possa sofrer sem maiores explicações. há uns sete anos, extraí um dente do siso. por mais de uma hora, chorei feito criança, inconsolável, copiosamente e a ponto de soluçar. era a dor física, sim, mas não só. por um segundo de lucidez, percebi que chorava por todas as dores da minha vida, por todos os ais que haviam ficado pelo caminho sem terem sido devidamente saboreados. foi como lavar a alma com sabão de coco e pendurar no varal sob o sol desavergonhado do meio-dia. na manhã seguinte, acordei mais leve, pronta para novos encontros e dores ainda desconhecidas. eu preciso disso, preciso. não é vontade de dor nem amor ao sofrimento, é apenas um entregar-se sem reservas de quem entende que a vida é isso também. e que de vez em quando, a gente precisa cortar o dedo.
3.10.09
parabéns a você
eu hoje fiquei pensando muito no que eu podia te dizer.
eu queria encontrar um jeito de fazer chegar até você todo esse sentimento, essa intensidade que palpita aqui dentro e a doçura com a qual eu digo o teu nome. uma doçura cheia de saudades e vontade de presença.
é que às vezes as palavras são traiçoeiras, e nem de longe dizem tudo aquilo que a gente queria que elas dissessem. porque o sentimento é demais, e tudo o que eu sinto e tenho vontade de te dizer ainda não tem nome, é pura poesia desobrigada de palavras. entrega pura, puro sentir.
o que eu queria mesmo era poder te dar um abraço apertado de feliz aniversário, sair andando pela madrugada no meio do silêncio e da escuridão, essa escuridão que assusta mas também acolhe quem é bicho assustado, bicho do avesso, bicho à flor da pelo, feito você. e feito eu.
eu queria mesmo era poder dar risada das coisas bobas conversando contigo, ou passar uma tarde inteirinha saboreando woody allen ou almodóvar ou lars von trier ou iñarritu, vontade imensa de pirar e mergulhar e chorar e borboletear e brotoejar tudo juntinho contigo, que entende a minha loucura tão bem, porque também é a tua.
saudades, minha irmã, saudades, é isso. no final das contas, é isso.
já fazem dois anos, mas elas ainda me dóem como no primeiro dia.
e o amor, esse não é mais igual, não. porque cresceu, e cresce feito plantinha desavergonhada que a gente não precisa nem regar, e vai crescendo sem pedir licença, e quando a gente vê já tomou conta de todo o jardim, das paredes do quintal, dos muros do vizinho e já existe dentro da gente dum jeito que não se pode voltar atrás.
mas também, eu nem queria.
minha linda, minha flor. minha irmã querida, um parabéns com gosto de trufa de nescau e felicidade ao cair da tarde.
amo você, sempre.






